domingo, 14 de outubro de 2007

Dom


Use minha vontade.

Nada de amor mimético, estético.

Me dê a rebarba, o defeito, o teu jeito.

Da tua pose covarde,

Faça um samba patético.

Da tua falsa coragem,

Faça um paço sintético.

Tropece, disfarce, invente, seja meu,

Minha nota de bamba,

Meu malandro de rua,

Tudo que a vida roeu,

Todo meu dom de ser tua.

[Aline Sampin


- Ilustração: Aline Sampin

sábado, 4 de agosto de 2007

Anônimo

Silêncio, silêncio.

Na minha nuca, olhos me fitam.

Me seguem, mas não vou me virar.

Sinto o calor de um suspiro,

Muito úmido, mas não quero olhar.

O anônimo me soa como mito,

Porém, no mesmo rito, eu me nego.

Anônimo talvez por medo ou desapego.

Incógnita, enigma, charada.

Embora a curiosidade reja,

Até que aprecio alongar meu desespero.

Quem sou eu pra ter alguma resposta.

Não sou ninguém pra pessoa as minhas costas.

Meu anonimato é bem mais relevante.

Sou incógnita muito mais constante,

Perene de meu mundo.

Oh! Meu cavaleiro onipresente virtual

Me socorre desta rede de intrigas digitais.

Me apanhe em seu cavalo de tróia!

Tenho um presente grego no meu colo.

Se debruce sobre meu ombro,

E veja que rara jóia,

Um órgão naturalmente solo

Sem afagos, um verdadeiro escombro.

O que sobrou da pequena máquina

Intimamente infectada pelo teu

Silêncio, silêncio, silêncio...

[Aline Sampin



- Ilustração: Aline Sampin.


terça-feira, 10 de julho de 2007

Perdôo-te tua cor, nega


Nega, me empresta tua cor!
Não recusa meu perdão.
Tens me causado tanta dor
Os olhares à tua pele,
Todos os “ais” na tua mão.

Perdôo-te o descaso,
O fracasso da minha ginga,
O mau pedaço que és do mundo,
A malemolência de tuas carnes,
Teu gosto por boa briga.
Perdôo-te por um segundo.

Mas me empresta tua cor!
Cobre-me de melanina!
Deixa eu me sentir forte, menina!
Queira me dar o teu amor!

[Aline Sampin


-ilustração: Aline Sampin

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Prazer


Um acaso de bocas que se encontram.
Principio de um desentendimento.
Um particular a dois
Afastamento do resto do mundo Sensorial,
Sem sentido de ser.

Dentes se esbarram num sorriso
Duradouro por crescer.
Motivo sincero para um abraço
E mãos que começam a descer
Por um caminho desconhecido,
Ou ao menos por esse ponto de vista.
De dois corpos que já não vestem mais nada.
De dois copos, de dois sopros de vida.
De berros uníssonos, suspiros, ar.

Contrações simétricas do par,
Que contam o que a boca não pode falar.
Não pode gemer e já não pode gritar.
Já não se permitem amar longe.

[Aline Sampin

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Perfil Contraditório

Hoje eu viro a cara,
Não pro mundo
porque eu vivo nele.
Viro a cara pra realidade
Que espanca, que invade.
Formas paradigmáticas inexatas,
invadem os sonhos dos normais,
e fazem sangrar nossa civilidade.
A sociedade está infectada por seres psicopatas, filhos de mães encabuladas, herdeiros de pais etnocentristas, logocentristas, sociopatas...
Mas eu vivo, eu sobrevivo.
Permanecerei nesse estado lateral, enquanto houver recursos para tal. Perdão pelas palavras fortes, só o gesto diria por si. Mas resolvi me contradizer... só por hoje.

[Aline Sampin

Infância de Joana


Suspensa por um balanço
Joana permanece
Durante o dia,quando anoitece,
Durante toda vida.
Essa mesma que lhe entristece.
Joana não quer comer.
Nem comida, nem besteiras.
Joana quer o balanço.
Quer o ar e a mangueira.
Leva a vida por essas cordas
Que balançam o seu sonhar.
Quer o vento no sorriso.
Joana pensa em calar.
E cala por um momento
Longo e tenso de crescer.
De entender que a infância,
Os primeiros passos de uma vida,
Passa pra nunca mais.
Mas a brincadeira
A velha companheira,
Essa, o tempo não desfaz.
Joana cresceu.
Envelheceu.
E ainda brinca de viver.

[Aline Sampin