quinta-feira, 24 de julho de 2008

Sensacional


Espelho que diz o que quer
Quando bem entende.
Que sabe aonde vai.
Ora menina, ora mulher.
Da minha força depende.
Instalou-se em minha vida e nunca mais sai.

Querida como se eu mesmo fosse.
Companheira uterina de anos atrás
Minha primeira boneca e preferida.
Amiga, em quem instauro minha posse.
Irmã idêntica, nem menos, nem mais.

[Aline Sampin


-Ilustração: Aline Sampin

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Cuca Complicada





Não sei como pode,
Problema ser consolo
Ou se consolar em um problema.
Consolo é quem acode.
Problema é um engodo.
Então se fez mais um dilema.

Não sei quem me acode
Pra resolver este dilema.
Consola-me quem pode,
Resolva meu problema.
Se o consolo é um engodo,
Anseio um estratagema.

Pois se o tal consolo
É verdadeiramente dolo.
Imaginem o problema!
Será ele um teorema?
Resolvê-lo ninguém pode.
Então, meu Deus, quem me acode?

Assim, assim, minha cuca explode!
Será eu, o meu problema?
Ou será que sou consolo?
Será que eu mesmo me acudo?
Ou será isto mais um dilema?
E ainda, será que tudo isto pode?

[Aline Sampin


- Ilustração: Aline Sampin

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Ócio

O pulso parou sensivelmente.
Destarte a carne morre sem esforço.
Vermelho se faz preto.
Vivo apodrece, sobra o osso.

Consciente abandona-o a mercê do nada.
Destarte a mente se faz ausente.
Rosto empalidece num branco insosso.
Labuta putrefaz, sobra a preguiça da mente

[Aline Sampin


-Ilustração: Aline Sampin.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Meu Jogo

Eu queria, ainda, um resto do que vem.

Vender o nada que me cabe da sombra que me cobre.

Ter a visão distorcida por uma bolha de sabão.

Comprar a bolha por apenas um vintém.

Das folhas da árvore me vestir e me sentir nobre.

Ter meu mundinho me protegendo de qualquer não.


Mais ainda, eu queria ter a tua companhia.

Tê-lo preso, por tua vontade, ao meu lado.

Aperfeiçoar, o que é perfeito, tua nobreza.

Enfiar-te em mais uma bolha que surgiria.

Vigiar, como um tesouro, teu olhar apaixonado.

Trancar, a sete chaves, no meu peito, tua pureza.


Queria, em fim, caminhar por sobre a mesa.

Admirar este meu encantador jogo de tabuleiro.

Jogar o pequeno dado de única face.

Ganhar de minha rival a realeza.

Descobrir que não tem preço este meu reino,

E que minha adversária era meu insólito disfarce.


[Aline Sampin


- Ilustração: Aline Sampin

domingo, 14 de outubro de 2007

Dom


Use minha vontade.

Nada de amor mimético, estético.

Me dê a rebarba, o defeito, o teu jeito.

Da tua pose covarde,

Faça um samba patético.

Da tua falsa coragem,

Faça um paço sintético.

Tropece, disfarce, invente, seja meu,

Minha nota de bamba,

Meu malandro de rua,

Tudo que a vida roeu,

Todo meu dom de ser tua.

[Aline Sampin


- Ilustração: Aline Sampin

sábado, 4 de agosto de 2007

Anônimo

Silêncio, silêncio.

Na minha nuca, olhos me fitam.

Me seguem, mas não vou me virar.

Sinto o calor de um suspiro,

Muito úmido, mas não quero olhar.

O anônimo me soa como mito,

Porém, no mesmo rito, eu me nego.

Anônimo talvez por medo ou desapego.

Incógnita, enigma, charada.

Embora a curiosidade reja,

Até que aprecio alongar meu desespero.

Quem sou eu pra ter alguma resposta.

Não sou ninguém pra pessoa as minhas costas.

Meu anonimato é bem mais relevante.

Sou incógnita muito mais constante,

Perene de meu mundo.

Oh! Meu cavaleiro onipresente virtual

Me socorre desta rede de intrigas digitais.

Me apanhe em seu cavalo de tróia!

Tenho um presente grego no meu colo.

Se debruce sobre meu ombro,

E veja que rara jóia,

Um órgão naturalmente solo

Sem afagos, um verdadeiro escombro.

O que sobrou da pequena máquina

Intimamente infectada pelo teu

Silêncio, silêncio, silêncio...

[Aline Sampin



- Ilustração: Aline Sampin.


terça-feira, 10 de julho de 2007

Perdôo-te tua cor, nega


Nega, me empresta tua cor!
Não recusa meu perdão.
Tens me causado tanta dor
Os olhares à tua pele,
Todos os “ais” na tua mão.

Perdôo-te o descaso,
O fracasso da minha ginga,
O mau pedaço que és do mundo,
A malemolência de tuas carnes,
Teu gosto por boa briga.
Perdôo-te por um segundo.

Mas me empresta tua cor!
Cobre-me de melanina!
Deixa eu me sentir forte, menina!
Queira me dar o teu amor!

[Aline Sampin


-ilustração: Aline Sampin

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Prazer


Um acaso de bocas que se encontram.
Principio de um desentendimento.
Um particular a dois
Afastamento do resto do mundo Sensorial,
Sem sentido de ser.

Dentes se esbarram num sorriso
Duradouro por crescer.
Motivo sincero para um abraço
E mãos que começam a descer
Por um caminho desconhecido,
Ou ao menos por esse ponto de vista.
De dois corpos que já não vestem mais nada.
De dois copos, de dois sopros de vida.
De berros uníssonos, suspiros, ar.

Contrações simétricas do par,
Que contam o que a boca não pode falar.
Não pode gemer e já não pode gritar.
Já não se permitem amar longe.

[Aline Sampin

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Perfil Contraditório

Hoje eu viro a cara,
Não pro mundo
porque eu vivo nele.
Viro a cara pra realidade
Que espanca, que invade.
Formas paradigmáticas inexatas,
invadem os sonhos dos normais,
e fazem sangrar nossa civilidade.
A sociedade está infectada por seres psicopatas, filhos de mães encabuladas, herdeiros de pais etnocentristas, logocentristas, sociopatas...
Mas eu vivo, eu sobrevivo.
Permanecerei nesse estado lateral, enquanto houver recursos para tal. Perdão pelas palavras fortes, só o gesto diria por si. Mas resolvi me contradizer... só por hoje.

[Aline Sampin

Infância de Joana


Suspensa por um balanço
Joana permanece
Durante o dia,quando anoitece,
Durante toda vida.
Essa mesma que lhe entristece.
Joana não quer comer.
Nem comida, nem besteiras.
Joana quer o balanço.
Quer o ar e a mangueira.
Leva a vida por essas cordas
Que balançam o seu sonhar.
Quer o vento no sorriso.
Joana pensa em calar.
E cala por um momento
Longo e tenso de crescer.
De entender que a infância,
Os primeiros passos de uma vida,
Passa pra nunca mais.
Mas a brincadeira
A velha companheira,
Essa, o tempo não desfaz.
Joana cresceu.
Envelheceu.
E ainda brinca de viver.

[Aline Sampin