terça-feira, 29 de novembro de 2011

Incansáveis



O tilintar de copos.
O cheiro envolvente
De um delicioso jantar.
Um jogo de dois corpos.
Gestos nada inocentes.
O amor presente e sublime.
Temperando com primor
O sabor de uma noite
Que até a eternidade se repetirá.

[Aline Sampin

[foto por Aline Sampin (câmera Pinhole do aplicativo retrô câmera do dispositivo móvel)

Soneto de laços falhos

Quando penso nos erros dos outros
Repenso os nossos enganos
Que são muitos e, no entanto,
Nossos acertos não foram poucos.

Traímos todos os laços,
A cada lágrima que rola contra
A distinção dos nossos traços,
Que ao tratarmos, não demos conta.

Soma ao teu dia
Minha marra mutável.
Sou tua companheira.

Testemunha minha euforia
Ao te ter tão amável,
Ainda que não queira.

[Aline Sampin

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Manifesto

Onde havia amor, já não se pode haver.
Mas do que nunca, de hoje em diante
Nessa terra, nessa vida, ninguém pode viver
Dos verbos que sucedem aquele que é operante.
Ninguém aqui fornica, ninguém pode mais foder.
Nem como gente amiga, nem como gente amante.

Cortem a carne do que peca.
Mas não permitam ver-lhe o sangue,
Que é o sumo do doloso.
É o que endurece toda neca.
E ainda que ele sangre.
Não lhe deixem ter o gozo.

Digam adeus à falha, ao erro, ao ato.
Não ouvi, ainda, palavra sequer.
Quem será o primeiro a ser de fato
O carnífice da iniquidade da mulher?
Saiba este, renegar apetitoso prato.
Em tal iguaria não meterá mais a colher.

Falemos de falência ao falo!
Gritemos guilhotina ao grelo!
Falência ao falo!
Guilhotina ao grelo!
Ao falo!
Ao grelo!
Falo grelo!

[Aline Sampin

domingo, 9 de outubro de 2011

Versos que dizem a vida de Maria e seus adversos

Sinceridade no olhar que sorria
Se ria toda de dança, de graça.
Que brinquedo contenta Maria?
E nem birra, nem pirraça.
Chega perto e enverga alegria.

É manhã da noite pro dia.
Maria canta qual passarinho.
Que barulho norteia Maria?
É murmuro de cantinho.
Mamãe chorava enquanto lia.

Lágrima de mãe dói qual tortura.
- Já sou crescida, posso aguentar.
- Papai se foi lá pras alturas.
- Mas mandou carta e vai voltar.
Mas não demora em sua candura.

Maria de raiva desespera:
Volta do pai é que nem nunca.
Desacredita a sua espera.
Seu coração vira espelunca.
Nada será mais como era.

Logo vê que o pai morreu.
Criança crê que tudo volta.
Mas vê no chico, que cresceu.
Chegou à idade de revolta.
E sua esperança feneceu.

Cadê carta, está no porão.
E no papel o que é verdade.
Letra não é do pai, mas do patrão.
Veio informar a calamidade.
Que pai morreu numa explosão.

Mina, mineral dá dinheiro que só.
Patrão sabe que o luto tem o seu valor.
Compra o luto pobre com um futuro melhor,
Inda cisma que seu ato foi um grande favor.
Eita vida, que de assim não dá pra ser pior.

- Pra ser gente, tu estás nesse mundo.
- Escuto tua fala e antes disse obedeço.
Não foi nesse, nem no outro segundo
Que a usança da moça virou do avesso.
Levaram dois anos num penar profundo.

Menina Maria debutou na estrada.
Foi para cidade a todo custo ser gente.
A revelia brotou cada passada.
Na noite urbana, assim mesmo de repente
Foi ter com a vida, essa amiga desgraçada.

[Aline Sampin

quarta-feira, 9 de março de 2011

Por que não?

Porque já foi embora.
Porque ainda é cedo.
Porque me recordo
Que não te conheço
Eu sempre demoro
Ou quase escureço.
Na vergonha da aurora
Tem meio tropeço.
Porque é meio-dia.
Pela minha frescura.
Por tua rebeldia.
Porque é sem cura
Essa minha agonia
De ser sempre pura.
Porque és anônimo.
Porque sou sem você.
Porque és antagônico
Ou por não merecer.
Nem hoje, nem ontem.
Mas talvez amanhã.
Só me diga seu nome.
Pra saber quem consome
Minha dúvida vã.

[Aline Sampin

domingo, 6 de março de 2011

Só por estar, e só

Não tenho nada pra me distrair
Não quero nada
Não me tenho
Se quer.

Estou em repouso aqui e ali
Minha pele parda
Meu empenho
Mulher

Solta no acaso que se repete
No olhar escasso
Corda bamba
Amor.

Por tua conduta que me repele
Não sou teu caso
Coisa branda
Favor.

Colido com minhas vontades
Toda vez que caio
Num desmaio
Perco.

Já são poucas as vaidades
Nada deixou, lacaio
Não te traio
Esqueço.

[Aline Sampin

sábado, 18 de setembro de 2010

Paisagem de Brutos Versos

Versos que em nosso amanhã
Teus olhos não lerão
Nem se lembrarão da cor vibrante
Que o hoje que será ontem
Mostraram a ti tão distante.

Em tal hoje, palavras diziam: tu és.
A angústia que me felicita és.
O pretexto do meu instinto animal.
És o compasso ansioso de meus pés.
Tudo o que é em mim natural.

Versos ásperos, já que brutos,
Bruteza própria de impulso
Pulsa tudo sem pensar,
Te machucam sem engano,
Fere mesmo, fere sempre, pra sarar.

Sou esta sincera provedora
Partindo tarde oscilante,
Provendo nada, chegando à toa
Na efemeridade de teus rompantes,
Na vida errante da tua proa.

Enfim, somos sem mais nem menos.
Teu barco não aportará em meu futuro.
Um dia, tua inerme vida te virará as costas.
Por certo, tu perderás teus remos.
Abrandado, te encontrarás seguro
Nas duras pedras de minhas encostas.

[Aline Sampin

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Nosso mundo... nosso encontro...

Quero abusar do teu tempo.
Ter tuas horas dedicadas.
Um pedaço da vida, um pequeno momento,
Teus vinte anos, tuas vontades abdicadas.

Quero um beijo roubado.
Um abraço no caminho,
Numa mordida, te ter machucado.
Dar-te a cura com mais e mais carinho.

Fica assim do meu lado,
Assim bem calado.
Guarda um pedaço de tudo isso pra depois.
Preserva nosso mundo,
Nosso encontro só pra nós dois.

[Aline Sampin

sábado, 7 de agosto de 2010

Aliciada

Ali se vê sempre

Alice sozinha.

Ilicitamente linda

E um tanto demente.

O eixo das pernas se perde,

Joelhos se encostam o mais que pode,

Coração quase fora do peito sacode.

Se morde de raiva cada vez que cede.

Lamentando, sorri com a má sorte.

Ama o beijo roubado

Enquanto odeia o ladrão.

Odeia ter sido beijada,

Ama não ter dito não.

Nem sei o que lhe dá

Que tudo volta ao que foi:

Indiferença no seu olhar,

Por dentro alguma coisa lhe dói.

Talvez, alegria que sem jeito

Dilata o peito até doer.

ou quem sabe um despeito

De gostar tanto do sujeito

que lhe beija por não ter o que fazer.


Ali se vê mais uma folha que cai.

E o inverno de Alice é quente

Feito noite fresca de verão.

Uma brisa sudoeste lhe atrai,

A ponto de, mais uma vez demente,

Estremecer no primeiro trovão.

Inacreditável, inesquecível!

Chove tempestade no iverno de Alice.

No meio do caos ressurge o ladrão.

Rouba-lhe mais do que o crível

De novo, Alice esconde seu não.

Agora nada está onde estava:

Indiferença, alegria ou despeito

Como nunca se amalgamam.

Pra depois, nada restava.

Nem perfeição, nem defeito.

Só amantes que não se amam.


[Aline Sampin


- Ilustração: Aline Sampin


sexta-feira, 6 de agosto de 2010

On the bus

Yesterday,
I saw a couple kissing on the bus where I was.
They seemd happy as a lot of people would like to be.
I am sorry, but they were not like us.
What do you think? Do not tell a lie to me.

You are not a person I would like marry.
I'd never marry a rude man. I know other guys.
And I already have my problems to carry.
I don't want who doesn't kiss me on the bus.

[Aline Sampin

domingo, 21 de março de 2010

Não entendo

Não entendo, não entendo
Pra que tantas desculpas e motivos.
Pra que isso tanto?
It's true. It's so hard to be alone.
Sou eu mesmo, sou eu mesmo
Que pouco falo e muito penso.
Pra que tantos rostos e esquivos?
I'm fine, I'm alone enough
to have him inside me.
E o derramo, o derramo
Em lágrimas pelo beijo do outro.
Só mais uma cena pro meu repertório.
Somente mais um engano.
Mais um abalo no meu orgulho torto.

[Aline Sampin

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Perto


Fala mais ao meu ouvido, mais perto!
Não posso com essa confusão dentro de mim!
Meu coração está gritando cada dia mais alto!
Está a cada minuto mais desobediente, mais disperso!
Vamos com calma, não adianta castigá-lo.
Nem dar tempo ao tempo, porque dói agora.

[Aline Sampin

- Ilustração: Jaque Sampin

domingo, 3 de janeiro de 2010

Prólogo



Um dia foi o desconhecido por perto
Colidindo em jardins sem flores e sem palavras.
No seguinte, sorrisos tímidos, de certo,
E enigmas por trás de uma possível cilada.
Numa insólita noite, um compromisso
Impensado, acerca de assuntos comuns.
Igualmente espontâneo, o beijo na hora errada,
Mãos dadas sem intimidade, futuro em aberto.
Até que chega um tempo escasso de beijos e abraços,
Então escondidos das outras amadas.
O que era impossível se torna incerto.
Incerteza do telefonema prometido e evitado
(Essência da primeira dentre muitas apostas),
Ansiedade pelo primeiro encontro marcado,
Conflitos entre duas posturas opostas.
Hora de se afastar, antes que seja tarde!
Mas uma tarde imponente e deleitosa
Fez muito por nós, sem fazer alarde.
Em poesias se transformou a nossa prosa.
Então se finge que namora e se encontra e se beija
E a gente quer ser feliz, mas tem gente que não deixa.
E namora escondido ou finge que não namora,
Porque se é jovem e agora não é hora.
E o que se faz quando o corpo manda mais que a mente?
Acaba-se com tudo, assim mesmo, de repente.
Como quem desce num bonde sem freio,
Como quem reparte um coração ao meio.
E se é confuso, chora e ri, diz e desdiz...
Até que num dia, num jardim sem flores, algumas palavras,
Um encontro casual, daqueles sem querer, mas arranjado,
E um beijo que há muito se quis, e que só assim se é feliz!
Mãos dadas com intimidade, presente aguardado,
Sem compromisso, só com vontade.
Em um minuto se morre de saudade!
Ai, que a gente não se agüenta!
Numa estação de metro: até logo namorada!
Alegria que chega grande e lenta!
Sorriso que dura até hoje, cada dia uma pitada!
E já são dois anos que partimos e retornamos.
Mais de cem semanas de conversas levianas.
Mais de setecentos dias que percebi que me querias.
E é assim que começa a longa história
De um menino e sua menina sonhadora.
Eis o prólogo, o restante começa agora...

[Aline Sampin

- Ilustração: Aline Sampin

Preencha de sonhos



Sou uma barragem contendo a correnteza.
A minha volta, secura da terra que se quer encharcar,
De tanta sede que sente da minha inútil estranheza.
Mas a represa tudo ampara. Esta represa, meu olhar.

Meu olhar que nada vê, que mede, desvia, se mexe,
Esconde vontade, dissimula desejos e constrange um futuro.
A correnteza, meu bem, um devaneio, se escabeche,
Cá dentro, cá comigo, com o cálice que amarguro.

Um cálice até a borda de sonhos, tonturas, caprichos,
Silêncio e sussurros que não pretendo libar.
Penso que se não me mexo, nada sai do lugar.

Paraliso e aguardo quem complete meus rabiscos.
Os desenhos mal feitos, que eu não quero enxergar.
Por favor, preencha-me de sonhos antes de se retirar.

[Aline Sampin

- Foto: Leli

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Plágio

- Esta cara não tá nada mal!
Entorta mais, obscurece.
- Tá parecido ou igual?
- Assim teu olho não convence.
Vira de lado, diagonal.
- Assim tá bom, é similar?
- Empalidece. Mais superficial.
É mesmo isso, tá quase lá!
Agora um bico mais imoral.
- To idêntico? Posso parar?
- Tal e qual, um legítimo cara de pau!

[Aline Sampin

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Soneto de Simbiose


Em minha pele, teu cheiro.
Teu gosto em minha boca que vai.
Segue um sorriso satisfeito.
Alegria na lágrima que cai.

Mesmo triste, afortunada me vejo.
Contente, minha sorte por te ver
Feliz e faceiro num longo beijo,
Prazenteiro sempre ao me dar prazer.

Falo de mim ao me referir a você.
Penso em você quando me quero lembrar.
Faço-te o bem para o meu próprio proveito.

Ouço meu coração, quando é o teu a bater.
Vejo minha vida passar em teu olhar.
Sei mesmo que amo e não tem mais jeito.

[Aline Sampin


- Ilustração: Aline Sampin

domingo, 14 de setembro de 2008

O Soldado


A imagem de um soldado
Não me sai mais da cabeça.
Ele era uma fortaleza,
Feito de um frágil papelão.

Pintado de nanquim,
Enfeitado com um borrão.
O borrado trazia no peito,
Com formato de coração.

No braço, a sua patente
De pedacinhos de macarrão.
Sua farda impecável,
De um amassado papel crepom.

Todo ele tão posudo,
Olhar respeitoso
E arma na mão.

Arma branca: uma espada.
Na verdade,
Uma rosa branca despedaçada.

Que perfeito militar!
Que figura mais bonita!
Mas faltava algo pra completar:
Este homenzinho não tinha vida.

[Aline Sampin

- Ilustração: Aline Sampin

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Menina Mulher


Vi a mulher, vi a menina.
Parti sem deixá-las pra trás.
Sorrindo, as três chorando feridas.
Andamos, mãos dadas, sonhamos demais.

Chegamos pra toda gente.
Olá, fora de nós!
Roubamos a cena, perdemos o rumo.
Perfeito virou ausente,
E assim, nos vimos sós.

Mulher envelheceu depressa,
Menina logo se perdeu.
Nessa confusão, longe da festa,
Vi que menina e mulher eram eu.

[Aline Sampin


-Ilustração: Aline Sampin

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Liberdade


Vida minha e liberdade,

Dêem as mãos de boa vontade!

Ao contrário interfiro,

Amarro, cerco, interligo!

Separadas é que não ficam,

E aí, que não se bicam?

Tenho nada com isso.

Só quero ver o compromisso?

Uma e outra, lado a lado.

Quiçá de rosto colado.

Imperativa, eu?

Dogmática me soa melhor.


[Aline Sampin



-Ilustração: Aline Sampin

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Sensacional

Espelho que diz o que quer

Quando bem entende.

Que sabe aonde vai.

Ora menina, ora mulher.

Da minha força depende.

Instalou-se em minha vida e nunca mais sai.


Querida como se eu mesmo fosse.

Companheira uterina de anos atrás

Minha primeira boneca e preferida.

Amiga, em quem instauro minha posse.

Irmã idêntica, nem menos, nem mais.

A outra metade, sensacional já antes de nascida!


[Aline Sampin



-Ilustração: Aline Sampin

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Pão de Açúcar



O que é doce dura pouco.

A fruta, a bala, o bolo.

Quem roubou o pão?

Quem disse que era de açúcar?

Quem me tirou o chão?

Quem disse que não machuca?


Mas eu não tive medo,

Subi sem hesitar.

Um beijo... outro...

Pra mim ainda era cedo,

Cedo pra descer, pra acabar.

Uma lágrima... outra...


Por que o homem me seguiu?

E continua a seguir, seguir...

Inda quer meu beijo doce.

Desvencilhar não conseguiu.

Inda me faz rir, rir...


Meu doce beijo perdeu o ponto.

O sorriso açucarou.

Meu abraço perdeu a liga

Meu olhar aguou.

Porque o que é doce dura pouco.

Porque a vida não é de açúcar.


[Aline Sampin


-Ilustração: Aline Sampin

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Cuca Complicada




Não sei como pode,

Problema ser consolo

Ou se consolar em um problema.

Consolo é quem acode.

Problema é um engodo.

Então se fez mais um dilema.


Não sei quem me acode

Pra resolver este dilema.

Consola-me quem pode,

Resolva meu problema.

Se o consolo é um engodo,

Anseio um estratagema.


Pois se o tal consolo

É verdadeiramente dolo.

Imaginem o problema!

Será ele um teorema?

Resolvê-lo ninguém pode.

Então, meu Deus, quem me acode?


Assim, assim, minha cuca explode!

Será eu, o meu problema?

Ou será que sou consolo?

Será que eu mesmo me acudo?

Ou será isto mais um dilema?

E ainda, será que tudo isto pode?


[Aline Sampin



Em homenagem à uma pessoa muito especial!!



- Ilustração: Aline Sampin

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Inerte

Oh! Dor insensível, sem razão de ser!
Ansiedade aguda que me enrijece.
Meu corpo abandonado estremece,
A tal ponto que me faz dizer:
Estou fraca e com sono.
A solidão da noite eu ambiciono,
Pra me enrolar e me esquecer.

[Aline Sampin

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Ócio

O pulso parou sensivelmente.
Destarte a carne morre sem esforço.
Vermelho se faz preto.
Vivo apodrece, sobra o osso.

Consciente abandona-o a mercê do nada.
Destarte a mente se faz ausente.
Rosto empalidece num branco insosso.
Labuta putrefaz, sobra a preguiça da mente

[Aline Sampin


-Ilustração: Aline Sampin.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Atualmente



Por que antes, se agora é hoje?

Por que depois, se agora é mais próximo?

O instante que nos une, cabe em nós.

Somente em nós, amantes correspondidos.

Às vezes escondidos.

Sempre viciados e entorpecidos.

Casal auto-suficiente de carinho incomensurável.

Um par de conquistados e conquistadores,

Ímpar no que se diz de amores.


[Aline Sampin

Ilustração: Aline Sampin

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Meu Jogo

Eu queria, ainda, um resto do que vem.

Vender o nada que me cabe da sombra que me cobre.

Ter a visão distorcida por uma bolha de sabão.

Comprar a bolha por apenas um vintém.

Das folhas da árvore me vestir e me sentir nobre.

Ter meu mundinho me protegendo de qualquer não.


Mais ainda, eu queria ter a tua companhia.

Tê-lo preso, por tua vontade, ao meu lado.

Aperfeiçoar, o que é perfeito, tua nobreza.

Enfiar-te em mais uma bolha que surgiria.

Vigiar, como um tesouro, teu olhar apaixonado.

Trancar, a sete chaves, no meu peito, tua pureza.


Queria, em fim, caminhar por sobre a mesa.

Admirar este meu encantador jogo de tabuleiro.

Jogar o pequeno dado de única face.

Ganhar de minha rival a realeza.

Descobrir que não tem preço este meu reino,

E que minha adversária era meu insólito disfarce.


[Aline Sampin


- Ilustração: Aline Sampin

domingo, 14 de outubro de 2007

Dom


Use minha vontade.

Nada de amor mimético, estético.

Me dê a rebarba, o defeito, o teu jeito.

Da tua pose covarde,

Faça um samba patético.

Da tua falsa coragem,

Faça um paço sintético.

Tropece, disfarce, invente, seja meu,

Minha nota de bamba,

Meu malandro de rua,

Tudo que a vida roeu,

Todo meu dom de ser tua.

[Aline Sampin


- Ilustração: Aline Sampin

domingo, 30 de setembro de 2007

Romance Metafórico


Pintou as maçãs mais

Vermelhas de sua face

Tímida, sem disfarce.


Buliu nuns fios

De ovos dourados

No topo da cabeça,

Finos e enrolados.


Ofereceu seu mar

Agitado a um mergulhador

Ansioso por pular

No azul do seu olhar.


Espalhou os mais brancos

Grãos de arroz,

Num sorriso que adiou

Todo tempo pra depois.


Enganou-se arduamente

Em uma sociedade

De lábios quentes

Anônimos, sem castidade.


[Aline Sampin



- Ilustração: Aline Sampin

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Faz de Conta que Namora

Sossega, meu menino!

Faz-de-conta não machuca.

Só lhe dão conselhos,

Solidão pra ti, criança.

Palavra não te ajuda.

Vem! Ladrilha a minha rua.

Pode brincar com a minha trança.

Pode jogar com meu olhar.

Deixo-te beijar a minha boca.

No começo, sempre lento,

Pra depois acelerar.

Esconde-esconde pensamentos.

Brincamos de super-herói,

Você me salva do passado,

Defende-me de tudo que dói.

Falamos, falamos,

Até morrermos de rir.

Dançamos, sonhamos,

Cantamos um pout-pourri.

Mas criança também cansa.

Leva-me, agora, pra casa.

Quero passear com tuas asas.

Quero ter medo de cair.

[Aline Sampin



-Ilustração: Aline Sampin

sábado, 8 de setembro de 2007

Hoje que não volta


Data que diz: nada mais.

Falha no tempo.

Intervalo.

Hoje chegou há uns anos atrás.

Era uma vez...

Pra sempre que virou nunca.

Minha vontade se desfez.

Coração se esvai.

Sobrevivo como numa espelunca.

[Aline Sampin



- Ilustração: Aline Sampin


sábado, 4 de agosto de 2007

Anônimo

Silêncio, silêncio.

Na minha nuca, olhos me fitam.

Me seguem, mas não vou me virar.

Sinto o calor de um suspiro,

Muito úmido, mas não quero olhar.

O anônimo me soa como mito,

Porém, no mesmo rito, eu me nego.

Anônimo talvez por medo ou desapego.

Incógnita, enigma, charada.

Embora a curiosidade reja,

Até que aprecio alongar meu desespero.

Quem sou eu pra ter alguma resposta.

Não sou ninguém pra pessoa as minhas costas.

Meu anonimato é bem mais relevante.

Sou incógnita muito mais constante,

Perene de meu mundo.

Oh! Meu cavaleiro onipresente virtual

Me socorre desta rede de intrigas digitais.

Me apanhe em seu cavalo de tróia!

Tenho um presente grego no meu colo.

Se debruce sobre meu ombro,

E veja que rara jóia,

Um órgão naturalmente solo

Sem afagos, um verdadeiro escombro.

O que sobrou da pequena máquina

Intimamente infectada pelo teu

Silêncio, silêncio, silêncio...

[Aline Sampin



- Ilustração: Aline Sampin.


segunda-feira, 30 de julho de 2007

Hoje

A música entre nós dizia o que eu não queria acreditar.

O verso mal era dito, ainda pior eu escutava.

Apaguei-o de minha memória, dos meus dias.

Ainda chorava quando tu rias.

Um ano passou em poucas horas.

Até parece que foi ontem a despedida.

Até parece que se foi ontem as minhas mágoas.

Hoje eu sou mais bela, mais clara, mais ébria.

Sou aquela notada ao passar pela avenida movimentada,

Deixo rastro de meu perfume que não conheces

E nem irá.

Sou um passado em tua vida, com um futuro sem planejar.

[Aline Sampin



- Ilustração: Aline Sampin




segunda-feira, 16 de julho de 2007

Conjugação

Duvidas do meu futuro?

Traga-me, então, um passado que valha a pena.

Fascina-me com teu olhar obscuro,

Faça-me pensar em algo que não seja eu,

Trata-me como teu presente!

Então meu futuro será teu

Ainda que o futuro seja assustador, me assuste!

Ainda que seja esperançoso, me mostre!

Mostre-me a linha do horizonte!

Chame-me, pegue-me, me ame!

[Aline Sampin e Alexandre Paz



Alexandre dando os primeiros passos na poesia. Mas um pro bando!!



- Ilustração: Aline Sampin




terça-feira, 10 de julho de 2007

Perdôo-te tua cor, nega


Nega, me empresta tua cor!

Não recusa meu perdão.

Tens me causado tanta dor

Os olhares à tua pele,

Todos os “ais” na tua mão.


Perdôo-te o descaso,

O fracasso da minha ginga,

O mau pedaço que és do mundo,

A malemolência de tuas carnes,

Teu gosto por boa briga.

Perdôo-te por um segundo.


Mas me empresta tua cor!

Cobre-me de melanina!

Deixa eu me sentir forte, menina!

Queira me dar teu amor!


[Aline Sampin


-ilustração: Aline Sampin

Exemplo

Pelo exemplo,
Exemplo de um novo,
Que não é novo.
Mas Velho não chega a ser.

Tipo um tipo de charme,
Sorriso bobo, inesperado,
Voz que não chega onde quer,
Sempre um querer de bem querer.

Medo meu,
Medo de sentir medo,
De ser muito cedo,
Receio de me perder


Pelo exemplo,
Pelo que vejo, escrevo,
Resumo de poucas palavras
Sobre um romance preparado pra aprender.

[Aline Sampin

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Aprendendo a Estar Só


Não te indicaram o caminho a ser seguido?
O passo a passo da vida?
Não tem efeito voltar por uma alameda desconhecida.
Nem é direito se perder ou se achar.
A poça encharcou teus pés, mas cadê as marcas no chão?
Presença lhe falta para pisar o mundo perverso que te cerca.
Ausência lhe negam na bendita hora de estar só.
Só pra escrever, pra rezingar,
Pra gozar de uma “auto-despedida”.
Ou se aproximar de Deus.
E com ele aprender a caminhar.
A passar pela vida.
Voltar, se perder e se achar.
Ter presença pra marcar.
E ausência para O adorar.

[Aline Sampin
Para Muca Velasco.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Prazer


Um acaso de bocas que se encontram.
Principio de um desentendimento.
Um particular a dois
Afastamento do resto do mundo Sensorial,
Sem sentido de ser.

Dentes se esbarram num sorriso
Duradouro por crescer.
Motivo sincero para um abraço
E mãos que começam a descer
Por um caminho desconhecido,
Ou ao menos por esse ponto de vista.
De dois corpos que já não vestem mais nada.
De dois copos, de dois sopros de vida.
De berros uníssonos, suspiros, ar.

Contrações simétricas do par,
Que contam o que a boca não pode falar.
Não pode gemer e já não pode gritar.
Já não se permitem amar longe.

[Aline Sampin

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Mais um Tombo pra Levantar


Tombei para a direita
Sem saber o que me esperava.
Mas deixei fluir a lei da gravidade.
E até que nem se tornou tão grave a queda.
Foram cinco tempos de vinte em vinte.
Foi um único longo momento de poucos segundos.
Levantar foi bem mais trabalhoso.
Mas não durou nem metade do tempo ocupado pra cair.
Instauro, portanto, um colóquio, digamos, em manifesto,
Contra o que se diz sobre o santo que ajuda pra baixo.
Este não existe.
Porque se santo fosse, nem deixaria pender antes de levantar.
Santo mesmo só existe um, que se dá em letra maiúscula.
Que derruba sim, sem machucar, mas para aprendermos,
Que devagar é que se anda, que pra baixo não se olha,
Que uma lágrima é precária ante tantos dentes pra sorrir,
Enfim, que o que nos espera no fim deste nada de mundo,
É imponente o suficiente para aguardarmos sem rezingar.

[Aline Sampin

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

O que Vem de Novo?


A vida se torna, aos poucos, a coisa mais importante dela mesma.
Um amor se vai, mas ela fica.
Ela indica o caminho, mesmo que errado, de continuar.
Então continuo vivendo essa vida mal vivida,
Mas que, dia desses, me trará felicidade.
Não sei quando, nem onde, nem quem ela me trará.
Só espero chamar-se realmente felicidade
E ter como sobrenome eternidade.
Pois outras eternidades já me deram adeus.
Por enquanto permaneço na espera de voltarem,
As promessas de infinidades e seus lamentos de saudade.
Se em vão, for a minha espera, ao menos dei tempo ao tempo.
Até ele, às vezes, precisar pensar.

terça-feira, 8 de agosto de 2006

Esperança


Descobri importantes achados em meu interior:
A ansiedade é controlável, basta ler as instruções,
A tristeza passa se houver necessidade inevitável de ser forte,
A vida toma rumo, assim que se encontra o próprio norte.
As pessoas são mais felizes quando não vivem de ilusões,
E que é preciso acreditar que tudo peregrina pro melhor.

[Aline Sampin

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Quase Desistência

É por pouco que deixo de procurar
O que roubaste de minha vida
Breve e volúvel,
Sem nem ao menos uma ameaça fazer.
Pois foi de boa vontade que entreguei,
O que tens em mãos frias e imparciais,
O todo de minh’alma,
O calor do pouco de ar que sobra em meus pulmões.
E hoje, no abrigo da noite, busco a paz,
Perdendo-me em sonhos conscientes de meu ser,
Porque é acordada que os vejo
Passar a minha frente, a um palmo, e ainda assim,
Guardando a sensação de nunca mais os encontrar.

[Aline Sampin

sábado, 15 de julho de 2006

Visão Dura, Conclusão Impotente

Daqui se vê
O preto e braco dos guardas-chuvas
Aglomerados pelas ruas
Estreitando a solidão
Concretizando cada cidadão
Transformando em cinza
As cores e as formas
Dessa multidão.
Se arrastam de fadiga.
Se esbarram de fracasso.
Se enxergam sem vontade.
Se rasgam de saudade.
Mas o tempo não volta mais.
Essa água já nada lava.
Cidade de pedra não se desfaz.
E de lá também se vê.

[Aline Sampin

sexta-feira, 14 de julho de 2006

Lágrimas

Desidratei de tristeza.

Minhas lágrimas não mais escorrem.

Foram cortadas por mau uso.

Acabaram-se de tanto me usar.

Tenho medo de nunca mais conseguir chorar

E toda essa amargura se atrelar em peito,

Sem pudor, nem respeito.

Nem ao menos uma pequena dose de anestésico,

Pra curar essa dor tamanha,

Dão-me por piedade.

E por fim me condenam por calar.

Julgam-me demasiadamente estranha

Por não compartilhar com a sociedade.

Então, estanco minha vida.

Espero secar a ferida,

Essa desmedida da depressão.

As lágrimas? Um dia voltam.

É a maior certeza que tenho.

Por ora.


[Aline Sampin

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Perfil Contraditório

Hoje eu viro a cara,
Não pro mundo
porque eu vivo nele.
Viro a cara pra realidade
Que espanca, que invade.
Formas paradigmáticas inexatas,
invadem os sonhos dos normais,
e fazem sangrar nossa civilidade.
A sociedade está infectada por seres psicopatas, filhos de mães encabuladas, herdeiros de pais etnocentristas, logocentristas, sociopatas...
Mas eu vivo, eu sobrevivo.
Permanecerei nesse estado lateral, enquanto houver recursos para tal. Perdão pelas palavras fortes, só o gesto diria por si. Mas resolvi me contradizer... só por hoje.

[Aline Sampin

Infância de Joana


Suspensa por um balanço
Joana permanece
Durante o dia,quando anoitece,
Durante toda vida.
Essa mesma que lhe entristece.
Joana não quer comer.
Nem comida, nem besteiras.
Joana quer o balanço.
Quer o ar e a mangueira.
Leva a vida por essas cordas
Que balançam o seu sonhar.
Quer o vento no sorriso.
Joana pensa em calar.
E cala por um momento
Longo, tenso.
Momento de crescer.
De entender que a infância,
Os primeiros passos de uma vida,
Passa pra nunca mais.
Mas a brincadeira
A velha companheira,
Essa, o tempo não desfaz.
Joana cresceu.
Envelheceu.
E ainda brinca de viver.

[Aline Sampin

Amor Inadimplente

A distância não existe,
Se partirmos, deixando um coração.
Ou ao menos uma ilusão de volta,
Lembranças habituais.
O que são trezentos quilômetros,
Ou quarenta quilômetros,
Se nossas mentes ocupam um mesmo lugar?
Corpos não preenchem um mesmo lugar,
Pensamentos e sentimentos, sim.
Está tudo aqui, arrepiados dentro de mim.
Como pode meu interno ser maior que eu.
Só pode, porque um dia, alguém sem perceber,
Sem me dizer, se prometeu.
Promessa é dívida!
Infeliz de mim, não sei cobrar.
Serei eterna senhoria de um inadimplente de amar.

[Aline Sampin

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Paris



Ma soeur était là!

Sujeito



Já tentei diversas vezes alcançar
Esse sujeito que corre a minha frente,
Embora corra mais devagar do que ande,
Não o alcanço e ele nem sente.
Eu penso: grita mulher, reclama mulher.
Eu grito, mas não me escutam.
Reclamo, sem ter razão.
Esgarço minha voz: volta sujeito!
Mas não tem jeito.
Não me obedece, nem sei porque.
Talvez nem fosse pra obedecer.
Não sou dona nem das minhas vontades.
Quem sou eu para o entreter?
Espantoso, quando menos espero,
Eis que o sujeito vem.
E cadê minha bravura?
Cadê minha razão?
Inexplicável, quando o sujeito surge,
Desconheço o não e ofereço perdão
[Aline Sampin